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29/06/2017

Nestlé já anda na rota traçada por Dan Loeb

Por Sarah Gordon | Financial Times

A Nestlé está “empacada em seus velhos costumes”, com uma “cultura imperturbável” e uma “tendência a avanços graduais”. Algumas de suas marcas não fazem sentido. Nem sua participação na L’Oréal. A companhia não será capaz de manter aumentos de dividendos com sua estratégia atual e não é suficientemente lucrativa. Essas são algumas das críticas ao grupo suíço por Dan Loeb, investidor ativista cujo fundo de hedge Third Point assumiu uma participação de US$ 3,5 bilhões na Nestlé. Será que ele tem razão?

O negócio marca a nova investida do Third Point na Europa, onde o ativismo – e Loeb – é menos predominante do que nos Estados Unidos ou no Japão. O Third Point focou sua ira de maneira eficaz no passado, seja contra a Dow Chemical, Yahoo ou Sony.

Mas o caso da Nestlé é diferente. Loeb está embarcando em sua maior aposta até hoje, tendo comprado cerca de 40 milhões de ações (uma participação de 1,3%), e dedicando 15% do seu emblemático fundo para fazê-lo. Não se trata apenas de sua maior aposta, como também é uma posição de antagonismo assumida em relação à maior empresa até hoje.

Loeb fala com admiração sobre a Nestlé. Ele gosta muito de seu portfólio e diz respeitar seu diversificado conselho de administração. Mas quer chacoalhar a empresa. O grupo deveria, diz ele, desfazer-se de marcas com desempenho aquém do desejável, adotar um objetivo formal para, até 2020, ampliar suas margens de lucro operacional de 15% para entre 18% e 20% e assumir mais dívidas para financiar recompras de ações. A participação da empresa na L’Oréal deveria ser revista. Tudo isso poria fim ao baixo retorno ao acionista da companhia.

Muito disso faz sentido. As vendas orgânicas da Nestlé crescem a sua taxa mais lenta há duas décadas. As margens operacionais equivalem à metade das da Kraft Heinz. O balanço patrimonial da Nestlé está subalavancado, com um endividamento líquido sobre o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização bem abaixo de uma vez. A participação na L’Oréal, embora lucrativa, faz pouco sentido estratégico.

No entanto, embora a aposta de Loeb seja radical, nenhuma de suas sugestões são. Os investidores do Third Point devem questionar por que pagam taxas elevadas de administração para aplicar seu dinheiro de uma forma que mal merece o rótulo de ativismo.

Mark Schneider, CEO da Nestlé desde janeiro, já tomou o rumo que Loeb recomenda, e o Third Point não deveria levar crédito por decisões que a diretoria já está contemplando. O anúncio da Nestlé na terça-feira, de que recomprará mais de 20 bilhões de francos suíços (US$ 20,8 bilhões) em ações, parece menos uma resposta às demandas do Third Point do que o próximo passo numa estratégia que Schneider já definiu.

Os gestores da Nestlé já estão focados nas coisas certas, investindo nas áreas que crescem mais rápido – nutrição, bebidas e alimentos para animais de estimação – onde são gerados quase dois terços do lucro operacional do grupo e o retorno sobre o capital investido é saudável. Schneider colocou à venda o negócio de confeitos nos EUA, planeja migrar para alimentos saudáveis e já insinuou que adotará uma meta para os lucros.

Os investidores deveriam ficar cautelosos em face das outras cobranças de Loeb. Ele exagera no baixo desempenho da Nestlé. Como dizem analistas da Bernstein, os retornos totais aos acionistas (TSR, em inglês) e o lucro por ação foram deprimidos por efeitos cambiais. A taxas de câmbio constantes, o TSR da Nestlé na década passada foi 85% maior do que sugere o Third Point.

Em segundo lugar, um dos problemas da Nestlé é que a companhia tem muito dinheiro – não pouco. Alavancar só agravaria a situação. Em terceiro, devolver dinheiro aos acionistas na forma de uma recompra de ações só melhoraria os retornos no curto prazo. Tudo bem quanto aos alvos de margem, mas chegar lá exige mudanças de cultura dentro da Nestlé, uma tarefa muito mais difícil.

Se a intervenção de Loeb ajudará ou prejudicará Schneider nessa tarefa é algo discutível.

Via: Folha de São Paulo — Clipping de notícias de Marcus Herndl Filho, com informações do país e do mundo, além de finanças, economia e demais temas pertinentes.
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